Um Jogo de Palavras

Este é um espaço despretencioso, com o intúito de exercitar a escrita em diversão e entretenimento. Aqui os autores fazem oque bem entendem, sem exigências ou regras, pois a beleza se encontra também nos movimentos caóticos.

Sunday, February 27, 2005

O som dos passos.
A juventude que lhe permitia aqueles passos rápidos.
A juventude que teria dado à própria mãe de bom grado.

Ainda lembrava da cama enquanto pedia para sua mãe que não o deixasse. Sua mãe, em tubos, sedação e soro não podia nem se mover, quanto menos comunicar ao filho o quanto queria ficar para vê-lo crescer.

No som dos próprios passos enquanto caminhava, sentia que podia ouvir as respostas das suas perguntas. Aquele ritmado compasso pé-ante-pé lhe colocava em sintonia com sua mãe mais uma vez. E todas as histórias de aventuras e romances que ouvira quando criança pareciam tocar-lhe os pés.

Já perdia a conta das horas de caminhada. A fome que lhe aplacara nos últimos meses era diferente. Agora era apenas um ronco no estômago. Antes, sentia um ronco na alma.

Parou em um bar de posto e pediu duas coxinhas com Coca-cola. As coxinhas gordurentas não tinham osso ,obviamente, e não estavam tão apetitosas quanto deveriam, mas o sabor era diferente, vinha de dentro, vinha dos pés e do caminho. Comeu nas famosas três mordidas. As duas, em goles violentos de Coca-cola.

Pagou seus 3 reais e cinquenta centavos e seguiu.

Seguia no canto da estrada. Na pasagem de carros, ele percebia rostos aflitos, preocupados em chegar atrasado em casa, preocupados com um amor à espera ou quem sabe com a conta bancária negativa. Ferozes aos volantes dos carros, passavam todos tassiturnos como ele mesmo sempre esteve. Agora, Marcos via-se pela primeira vez no espelho e via quão miserável é a vida da maioria dos seus semelhantes. A tônica do mundo é a tristeza.

Se sentia liberto daquilo quando decidiu caminhar para o nada. Conseguia sorrir genuinamente, não como nos tele-jornais em seus sorrisos políticos de adeus depois da reportagem de mais um massacre em alguma favela do Rio. O sorriso começava no canto da boca e caminhava até os dedos do pé.

Um caminhão para ao lado da estrada agora vazia pelas altas horas. Era um caminhão de circo. Parecia ter furado o pneu.

O motorista desce e despeja sua fúria para com o ministério dos transportes e urbanismo em alguns palavrões categóricos. Ele apressadamente pega as ferramentas e inicia a atrapalhada tarefa. Parafusos se perdem, ferramentas voam e mais palavrões.

Marcos passa todo aquele tempo despercebido, oculto pelo escuro de uma noite nublada, até que uma das ferramentas lhe acerta a cabeça.

Seu Nícolas, o tal motorista, se espanta ao ouvir o grito surdo do garoto. Ele rapidamente foca a lanterna e encontra o moleque caído e inconsciente ao lado da ferramenta.

E agora?? Trocar o pneu?? Atender o menino?? Levar pra onde?? Estava entre duas cidades e tinha que fazer alguma coisa! Pegou o garoto, botou na boléia, trocou rapidamente o pneu usando apenas dois parafusos e partiu para seu destino. Tinha de chegar até o circo pela manhã, então escolheu seguir em frente.

...

-Delegacia de polícia, Boa noite
-Alô, aqui é Jorge Alves. Queria comunicar o desaparecimento do meu filho...

Friday, February 25, 2005

O Frango




Marcos acorda.

-..(Que horas são? Nao sei, já está escuro. Pelo silêncio deve ser madrugada)
Ele se levanta furtivamente, guiado pela luz palida da lua. A fome que sente é suficiente para que seus instintos animais venham à tona, fazendo-o esquecer de sua depressão.

Ele caminha sem fazer ruidos, passando por uma cortina de bolinhas de madeira que divide os quartos da cozinha. Ele se esgueira pelo espaco entre o chão e a cortina. Se encostasse naquela armadilha seria o suficiente para acordar seu pai. O sono leve de soldado em batalha era perturbado por qualquer coisa que se movesse dentro do territorio do lar. Marcos caminha até a pia, pega um copo sem fazer barulho, enche de água com a torneira aberta pela metade e com o copo proximo ao bico. Nem o som da agua pingando seria ouvido. Ele seca as gotas residuais da torneira com a toalha de pratos.

Depois vai para o objetivo principal: A geladeira. Ele pressiona a borracha pela lateral, fazendo com que a pressão interna se iguale e possa abrir a porta lentamente. Sabia que as garrafas de cerveja poderiam lhe denunciar. Ele vê o frango: -..(Droga, não tem mais coxas) Adorava as coxas. Sempre remetia seus pensamentos aos filmes de bárbaros, onde a coxa era devorada em três mordidas e um rapido giro do osso. Boca engordurada e arroto ao final. Era a cena de saciedade mais desejada por ele. -..(Merda, sem coxas!!). Ataca o peito, mesmo. Como animal, agarra com a mão e tira o naco inteiro do bixo. Carne branca, meio inssossa, mas a fome é maior que qualquer paladar refinado. Em goles de agua silenciosos e mordidas famintas, ele acaba com tudo em poucos segundos. Alí jaz a carcaça da galinha.

De barriga cheia ele se esgueira de volta à toca. Lambe as mãos para retirar a gordura e se aninha em sua cama para acumular forças. Amanhã teria de enfrentar o som das palmas de seu pai, seguido de arrancar de cobertores e abrir de janelas às 6 da manha, para que levantasse e se preparasse para o colégio. Era um verdadeiro tsunami nos campos de Manitu.