O Frango

Marcos acorda.
-..(Que horas são? Nao sei, já está escuro. Pelo silêncio deve ser madrugada)
Ele se levanta furtivamente, guiado pela luz palida da lua. A fome que sente é suficiente para que seus instintos animais venham à tona, fazendo-o esquecer de sua depressão.
Ele caminha sem fazer ruidos, passando por uma cortina de bolinhas de madeira que divide os quartos da cozinha. Ele se esgueira pelo espaco entre o chão e a cortina. Se encostasse naquela armadilha seria o suficiente para acordar seu pai. O sono leve de soldado em batalha era perturbado por qualquer coisa que se movesse dentro do territorio do lar. Marcos caminha até a pia, pega um copo sem fazer barulho, enche de água com a torneira aberta pela metade e com o copo proximo ao bico. Nem o som da agua pingando seria ouvido. Ele seca as gotas residuais da torneira com a toalha de pratos.
Depois vai para o objetivo principal: A geladeira. Ele pressiona a borracha pela lateral, fazendo com que a pressão interna se iguale e possa abrir a porta lentamente. Sabia que as garrafas de cerveja poderiam lhe denunciar. Ele vê o frango: -..(Droga, não tem mais coxas) Adorava as coxas. Sempre remetia seus pensamentos aos filmes de bárbaros, onde a coxa era devorada em três mordidas e um rapido giro do osso. Boca engordurada e arroto ao final. Era a cena de saciedade mais desejada por ele. -..(Merda, sem coxas!!). Ataca o peito, mesmo. Como animal, agarra com a mão e tira o naco inteiro do bixo. Carne branca, meio inssossa, mas a fome é maior que qualquer paladar refinado. Em goles de agua silenciosos e mordidas famintas, ele acaba com tudo em poucos segundos. Alí jaz a carcaça da galinha.
De barriga cheia ele se esgueira de volta à toca. Lambe as mãos para retirar a gordura e se aninha em sua cama para acumular forças. Amanhã teria de enfrentar o som das palmas de seu pai, seguido de arrancar de cobertores e abrir de janelas às 6 da manha, para que levantasse e se preparasse para o colégio. Era um verdadeiro tsunami nos campos de Manitu.

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